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segunda-feira, 4 de abril de 2011

IDENTIDADES CUIABANAS EM FOCO NO MISC


Em comemoração ao aniversário da cidade, a Prefeitura Municipal de Cuiabá/ Secretaria da Cultura lançarão uma série de atividades no período de 05 a 29 de abril, no Museu da Imagem e do Som de Cuiabá – MISC. A exemplo do ano anterior, em que se comemorou o aniversário da capital de Mato Grosso, integrada aos povos indígenas, este ano o evento será reeditado. Por isso a denominação “Ikuiapá-Cuiabá: identidade e memória II”, realizada em parceria com FUNAI, SEDUC, INCA, AMAV, Federação dos Povos Indígenas de Mato Grosso, Academia dos Saberes Indígenas e Instituto Yakamaniru .

Farão parte da programação as mostras de vídeos “ Cine MISC: Mato Grosso em Foco” e “Cine MISC: Povos Indígenas em Mato Grosso”, exposições do acervo do próprio museu e a exposição etnográfica “Universo das águas”. Aliás, o foco deste ano será a água e a sua importância para a cultura de todos os povos que compõem a identidade deste Estado. Ainda dentro da programação estão previstas duas mesas redondas com o título de “Imagens e sons das águas em Mato Grosso”, com a presença de personalidades ligadas ao tema. Haverá entrega de certificados.

O lançamento oficial de “Ikuiapá-Cuiabá: identidade e memória II” acontecerá dia 05 de abril, às 19:00 horas, e é aberto ao público. Também nessa ocasião acontecerá o lançamento dos resultados do projeto de digitalização do acervo fotográfico do MISC, por intermédio da Lei de Incentivo à Cultura do município de Cuiabá. Composto por aproximadamente 10 mil documentos produzidos ao longo do século XX, fazem parte desse acervo fotografias, cartões-postais, negativos, diapositivos e álbuns fotográficos. Constam também registros dos pioneiros de Cuiabá e Baixada Cuiabana, como Eurípides Andreato (o Nenê) e Lázaro Papazian, o Cháu, entre outros fotógrafos, que integram e enriquecem o acervo.

Com este projeto foi possível organizar, catalogar e digitalizar os documentos do MISC, a fim de garantir e ampliar as suas ações educativas e culturais. Foram adquiridos também equipamentos de informática necessários à execução dos trabalhos de catalogação e reprodução das imagens; e a obtenção de software com sistema apropriado à indexação do atual conjunto fotográfico. Compete a este software simplificar a busca no banco de dados exibindo os conteúdos com maior agilidade, garantindo dessa forma a preservação e a difusão da memória imagética de Cuiabá.

Toda a programação é gratuita. O MISC está situado à Rua Voluntário da Pátria, no centro histórico de Cuiabá. Está aberto de segunda a sexta-feira, das 14:00 às 18:00 horas. Abre além desses horários, apenas com agendamento escolar. Interessados podem entrar em contato através do fone 3617-1288 ou pelo e-mail movimentomisc@gmail.com

terça-feira, 8 de março de 2011

"DENTRE OUTROS"? TÁ GIRA?

Incrível como em nosso mundinho artístico-cultural as pessoas tentam minimizar ou mesmo ignorar a contribuição de outros com incontestáveis serviços prestados ao setor. Eu mesmo sou alvo frequente dessa sacanagem. Tive o dissabor de vivenciar esse fato agora, no carnaval, com a homenagem aos comediantes cuiabanos. Vi pela imprensa a relação dos homenageados e em nenhuma delas fui sequer citado. Todos os releases citavam vários nomes e a expressão "dentre outros". Considerei, então, que mais uma vez quiseram me anular. Mas, no sábado de carnaval, a organização me ligou convidando-me a participar. Recusei, lógico! Afinal, até onde se tem notícia, eu e Liu Arruda fomos os primeiros humoristas deste Estado. Portanto, tenho um nome, uma história. Reduzir-me a "dentre outros" é, no mínimo, uma ofensa. Mereço e exijo respeito!!!

Liu Arruda, Meire Pedroso e eu, em sátira política no "Passatempo", extinto bar do Jaime Okamura


quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

2011, UM ANO AFRO

Enfim, uma boa notícia: a Organização das Nações Unidas proclamou 2011 como o Ano Internacional das Populações Afrodescendentes. Dentre os objetivos principais podemos citar o fortalecimento do compromisso político pela erradicação da discriminação e a promoção de uma maior consciência e respeito à diversidade e cultura.



sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

PASSEIIIIIII!!!!

Quero compartilhar este momento feliz com vocês: fui aprovado na seleção para o doutorado, turma 2011, do Programa de Pós-graduação em Educação da UFMT. Foi um longo parto, iniciado no dia 15 de outubro, quando encerraram-se as inscrições. Primeiro avaliam-se o curriculum e o projeto de pesquisa. Uma vez aprovado, vai-se para a prova escrita. Aprovado, vai para a entrevista, a etapa final. E esse parto só foi concluído no dia 07 de dezembro, com a divulgação do resultado da entrevista. Ufa, tô dentro! Serão quatro anos de muito estudo e pesquisas bibliográfica e de campo. Estudarei a história de vida de Liu Arruda, entrelaçada à Educação Ambiental, transportando essa experiência para a comunidade de São Pedro de Joselândia, no Pantanal mato-grossense. O tema é por demais estimulante. Foi sugestão da minha orientadora, Dra Michèle Sato. Só Michèle mesmo...um tema tão próximo de mim, como todos sabem, e eu não tive essa ideia. Iremos repetir a feliz parceria do mestrado, quando ela também me orientou. Que felicidade, que felicidade !

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

DOM PEDRO MERECE!



O bispo da Prelazia de São Félix do Araguaia, Dom Pedro Casaldáliga, está entre os 40 homenageados da 16ª edição da insignia da Ordem do Mérito Cultural deste ano. Entre os homenageados estão nomes como Denise Stoklos, Gal Costa, Glória Pires, e alguns in memoriam: Carlos Drummond de Andrade, Cazuza, João Cabral de Melo Neto, Nelson Rodrigues, Vinicius de Moraes. A cerimônia de entrega da insígnia acontecerá nesta quinta-feira, no Theatro Municipal do Rio de Janeiro, e vai contar com a presença do presidente Lula. A homenagem é mais que justa. Dom Pedro Casaldáliga é tudo de bom! 

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

IMAGENS DA ÁFRICA

O lado de Lá” é o título do ensaio fotográfico de Ricardo Teles exposto na Pinacoteca do Estado de São Paulo, de 20 de novembro a 9 de janeiro. Com o “O lado de Lá” o fotógrafo se refere às regiões africanas de onde partiram os escravizados para o Brasil: Angola, República Democrática do Congo (antigo Zaire) e Benin.







quinta-feira, 18 de novembro de 2010

CUBA LIBRE

Cuba já não é mais a mesma. Os travestis que antes eram perseguidos pela polícia e se apresentavam clandestinamente, ganharam um festival só para eles, no último domingo. O show, realizado no Teatro América, no centro de Havana, homenageou Manuel Proenza, que se apresenta como "Mari Dalia" há 21 anos. O teatro bombou!

terça-feira, 16 de novembro de 2010

E AGORA, TIA NASTÁCIA?

O Ministério da Educação, o Conselho Nacional de Educação e a Academia Brasileira de Letras não se entendem. Os órgãos se envolveram em um polêmico debate acerca da obra de Monteiro Lobato, distribuída às escolas, mais particularmente sobre o livro “Caçadas de Pedrinho”. O trecho de maior  polêmica, acusado de racista, envolve a Tia Nastácia: “ Sim, era o único jeito — e Tia Nastácia, esquecida dos seus numerosos reumatismos, trepou que nem uma macaca de carvão pelo mastro de São Pedro acima, com tal agilidade que parecia nunca ter feito outra coisa na vida senão trepar em mastros”. Por conta particularmente dessa passagem alguns sugerem a exclusão da utilização oficial do livro. Já outros sugerem a inclusão de uma nota explicativa. E, para complicar ainda mais, há aqueles que consideram ambas as medidas um ato de censura. E agora?




quarta-feira, 6 de outubro de 2010

A PRESENÇA NEGRA EM MATO GROSSO

Quando o Museu da Imagem e do Som de Cuiabá “Lázaro Papazian – Cháu” – MISC resolveu realizar esta Mostra, em parceria com o NEPRE – Núcleo de Estudos e Pesquisas sobre Relações Raciais e Educação, da UFMT, não teve a pretensão de contemplar toda a produção artística e cultural da comunidade negra mato-grossense, pois temos consciência de sua enorme abrangência e complexidade. Portanto, uma mostra apenas não daria conta de revelar todo um universo de matriz africana circulando por este imenso Brasil, apesar de constantemente negado por construções ideológicas racistas. Há, além disso, a dificuldade de se encontrar tais contribuições registradas ou catalogadas, consequência de um longo processo de negação e invisibilidade do qual os negros são historicamente vítimas.

Sob o discurso da universalidade, o processo civilizatório ocidental sempre ignorou a presença negra, seja em que esfera for, desprezando o seu patrimônio sociocultural, acumulado ao longo de gerações. Suas expressões culturais são tidas como exóticas e atrasadas. Esse é o olhar do colonizador europeu que, ainda hoje, persiste. E, assim, as escolas ensinam mitologia grega, mas não ensinam mitologia africana. Foi preciso a criação, em 2003, da Lei 10.639, para se começar um movimento de ensino da história e da cultura afro-brasileira nos estabelecimentos de ensino fundamental e médio. As elites brancas sempre criaram as políticas culturais neste país, definindo o que deve ser preservado ou não. E, diante disso, o negro sempre sobrou. Mesmo quando, mais tarde, essas elites incorporam as criações e influências negras, antes desprezadas e reprimidas, identificando-as como símbolos de uma supostamente única identidade mato-grossense, o negro desaparece, torna-se invisível.

São quase trezentos anos de presença africana em Mato Grosso e a herança desses homens e mulheres não pode ser esquecida nem tampouco reduzida à participação na vida econômica deste Estado, como mão de obra escravizada, o que equivale a dizer que esses povos são dotados apenas de força física e desprovidos de intelecto e de sentido estético. Ressaltar a contribuição negra à cultura mato-grossense é uma questão de ética e, sobretudo, de justiça, pois estamos diante de contribuições que perpassam a vida deste Estado em aspectos que vão desde a língua, a culinária, a música, a dança e a visualidade, contemplando ainda valores sociais e concepções religiosas. São experiências de gerações, repletas de sentidos e saberes.

Discordando desse modelo racista e homogeneizador, o MISC quer intervir ideologicamente reafirmando a África como matriz do mundo, oportunizando à população negra o direito de se expressar, o direito à diferença, sem que esta tenha uma conotação de desigualdade ou separatismo. Enfim, queremos contribuir para que a população negra tenha o seu direito ao sonho. (Ivan Belém - diretor do MISC)


MOSTRA “A PRESENÇA NEGRA EM MATO GROSSO”


DE 05 DE OUTUBRO A 05 DE NOVEMBRO

MUSEU DA IMAGEM E DO SOM DE CUIABÁ

Rua Voluntários da Pátria, Centro 3617-1288

terça-feira, 28 de setembro de 2010

CURURU E SIRIRI: TANTAS PERGUNTAS...

Assisti ao último dia do 9º Festival de Siriri e Cururu de Mato Grosso, mega festa que até então vinha acontecendo na Avenida Beira Rio. A mudança, este ano, para o Parque de Exposições pareceu-me feliz. Havia amplo estacionamento, acomodação suficiente para o público se sentar, parecia tudo muito tranqüilo, apesar da lotação quase esgotada. Já na parte destinada à gastronomia, a calmaria era preocupante. Estava deserta. Acho que os comerciantes não se deram muito bem. Exceção para os vendedores ambulantes de espetinhos, cachorros quentes e baguncinhas, bastante frequentados. Foi uma grande festa sim, como nos anos anteriores. Mas, de qualquer forma, voltei pra casa cheio de perguntas: “O festival vem desmentir aqueles que anunciavam a morte do siriri e do cururu?” Não sei. Talvez o siriri e o cururu estejam, de fato, mortos em sua essência para renascer como algo que, se não se pode chamar de novo, traz em si visíveis mudanças. Seria reduzir demais a discussão se a tratarmos meramente sob o aspecto maniqueísta. Boas ou más, a verdade é que as mudanças ocorreram obedecendo a dinâmica própria a toda manifestação cultural. Assim, o siriri e o cururu, não são mais como os conhecemos nas comunidades que o praticavam ou ainda o praticam. Ganharam nova roupagem, flertando com o estilo Hollywood de se fazer espetáculo, guardadas as devidas proporções, evidentemente. E isso tem agradado às massas. Tanto que são quatro noites de casa cheia. No entanto observei que, às vezes, quando alguns grupos entravam na arena faziam tanta macaquice, tanta invencionice, que eu me perguntava: “Cadê o siriri, cadê o cururu?”. Talvez esse seja o preço a ser pago pelo fato de terem chegado ao século 21 como duas das maiores expressões culturais da Baixada Cuiabana...

terça-feira, 29 de junho de 2010

POBRES ARANHAS

Temidas e odiadas, as aranhas estão por toda a parte. Tanto faz se o lugar é quente e seco, ou frio e úmido. Lá estão elas. São mais de 32 mil espécies identificadas. Todas, indistintamente, são esmagadas pela maioria das pessoas. Que implicância! Você pode até achá-las feias e repugnantes, mas elas também têm direito à vida. E isso ninguém pode negar. Mas, bem distante daqui, no Camboja, elas são vistas por outro ângulo. Infelizmente nem assim estão à salva, pois seu destino é invariavelmente a panela. Turistas do mundo todo vão ao sudoeste asiático para comê-las, bem fritinhas ao alho e óleo. Melhores destinos tiveram as aranhas do nosso filósofo e roqueiro Raul Seixas, apesar de toda a repressão sofrida. Vejam:

 

quarta-feira, 23 de junho de 2010

DÁ-LHES, ENAWENÊ-NAWÊ!

Bem distantes daqui, a 473 km de Cuiabá, em Sapezal, município do norte do Mato Grosso, os Enawenê-nawê estão prontos para a guerra. Como sempre, contra os cara pálidas, e o seu capitalismo avassalador, destruidor de seus territórios, uma constante ameaça à sua sócio-cosmologia. Armados, eles protestam contra a construção de uma usina telegráfica na região do Rio Juruena. Quer saber mais sobre os Enawenê-nawê, clique no link abaixo.


http://pib.socioambiental.org/pt/povo/enawene-nawe

segunda-feira, 21 de junho de 2010

ESSE TAPA NÃO VAI FICAR ASSIM!

Quando penso em “elites brancas” tenho claro pra mim que aí estão também incluídos os negros embranquecidos, muitas vezes pelos brancos, quando estes ascendem ao poder. Nessas condições não é raro os brancos concederem “títulos” de mulatos, morenos e pardos aos negros. Também não é raro que os negros aceitem essa “titulação”, sem questionar. Esses perderam a oportunidade de aprender com o deputado Vicentinho, quando certa vez, falando da tribuna esclareceu que ele não é mulato porque não é filho de mula; e também não é pardo porque não é pardal. Se todos os senadores negros recusassem essa “titulação” e se assumissem enquanto afro-descendentes, talvez não estivéssemos agora amargando essa derrota. Mais uma. Pulverizando a negritude, as elites brancas deram mais uma vez um tapa na cara da população negra, ao aprovar o Estatuto da Igualdade Racial, da autoria do senador Paulo Paim (PT-RS), com ressalvas. Somente o fato de ter ficado engavetado dez anos aguardando aprovação, já dava sinais de que não era considerado relevante. Aprovado recentemente contém cortes drásticos, representando uma enorme derrota aos movimentos negros. O texto mutilado, com relatoria do senador branco Demóstenes Torres (DEM-GO), contou com interferências dos dedos podres da bancada ruralista. Retirou-se, então, do texto original a definição de quem são os remanescentes de quilombolas e derrubou a obrigatoriedade de reservas de vagas para negros e negras nas universidades e na indústria cultural. Continuam valendo as estéticas, os ideais e a lógica européias. Nos ferramos, de novo!
(Assista ao clip de Elza Soares, abaixo. Mata a pau!)










sexta-feira, 18 de junho de 2010

MISTERIOSO CASARÃO DOS MENDONÇA


A fachada que sobrou do casarão da Rua Barão de Melgaço, onde moraram Estevão de Mendonça e seu filho Rubens, dois dos maiores historiadores de Mato Grosso, foi demolida, apesar de estar situada em pleno Centro Histórico de Cuiabá, área que deveria estar salvaguardada, amparada pela legislação patrimonial,  uma vez que é tombada. Portanto, quem mandou demolir cometeu um crime. Mas, quem foi o autor? Essa é a pergunta que não quer se calar. O fato é que alguém, aproveitando o feriado prolongado de Corpus Christi, contratou homens e máquinas para efetuar o serviço – ou melhor, o desserviço. Desserviço à nossa memória, já tão comprometida. O fato repercutiu nacionalmente. Revistas eletrônicas de patrimônio histórico noticiaram e lamentaram o fato. A família diz que não foi ela a autora. A Prefeitura também. Muito menos eu, concordam?. A família, inclusive, registrou um BO. Por sua vez o IPHAN e a Secretaria Municipal de Meio Ambiente registraram queixa na Polícia Federal. Não precisa ser nenhum padre Quevedo para elucidar esse mistério...




terça-feira, 15 de junho de 2010

A ENERGIA DE CÉLIA CRUZ

Quero compartilhar com vocês a energia contagiante de Célia Cruz, cantora cubana falecida em 16 de julho de 2003. Clique no link abaixo e divirta-se!

FESTIVAL DE INVERNO DE CHAPADA: O TERROR

A partir do dia 26 de junho, quando começa o Festival de Inverno, Chapada dos Guimarães voltará a ser uma terra de ninguém. Com o festival a cidade vira um caos. Seus moradores, que nunca toleraram os hippies e afins, tradicionais freqüentadores da cidade, devem sentir falta da galera maluco beleza. Descoberta pelos ricos e emergentes, estes propagam o terror por lá. Lamentavelmente a nossa elite econômica não é uma elite cultural. E assim uma enorme quantidade de gente endinheirada, arrogante, bêbada e drogada sobe a serra, sem respeito a nada e nem a ninguém. A poluição impera em todos os níveis, do ambiental ao sonoro. Deixa um rastro também de mortos. Todo ano é assim: muita gente morre na estrada, a falta de água encanada, o barulho ensurdecedor dos sons automotivos, brigas e confusões. Pior é saber que para instaurar esse clima de terror o governo do Estado está investindo um milhão e duzentos mil reais, com o dinheiro dos impostos pagos por nós. Além de tudo, o acesso à programação nacional é excludente. Quem comprar antecipadamente o ingresso para o show de Ivete Sangalo, por exemplo, pagará R$ 20,00. Se deixar para comprar na hora, deverá desembolsar individualmente R$ 60,00. A programação regional certamente é gratuita. No entanto, como acontece todos os anos, os artistas locais nunca sabem quem está organizando. Esse detalhe vira um mistério. Sem saber a quem enviar propostas, ficam também excluídos. E assim o festival transforma-se também  em coisa de comadres. Quando é que tudo isso irá mudar?

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

CARNAVAL, UMA ETERNA REINVENÇÃO

Os críticos dizem que o carnaval cuiabano acabou. Transformou-se tanto que perdeu o sentido. Teriam razão eles? Tenho minhas dúvidas. Afinal, o que percebo é que, como toda manifestação cultural, o carnaval só sobreviveu porque não ficou estagnado no tempo, como se estivesse em uma redoma. Com suas origens antes de Cristo, tem passado por inúmeras transformações ao longo dos tempos. Não poderia deixar de ser diferente aqui, no Mato Grosso. Temos um carnaval ao modo daquilo que nossa gente gosta. O povo inventa e reinventa os festejos de Momo desde tempos imemoriais. Antigamente aqui também brincava-se o “Entrudo”, uma farra que consistia em jogar água de cheiro nas pessoas. O problema é que a essa água se adicionavam outras coisas nada agradáveis e nem muito menos perfumadas. Como era de se esperar, a brincadeira causava problemas, quase sempre. Por isso passou a ser reprimida pela polícia. Enquanto isso, a elite se reunia em associações ou residências, talvez de forma um pouco mais comportada ou contida. O Clube Feminino, onde hoje funciona a Secretaria Municipal de Cultura, foi um ícone desse período. A ele só a elite tinha acesso. Negros, pobres e minorias sexuais eram excluídos. Chega um momento, porém, que essa festa migra para as ruas, reunindo, finalmente, pobres e ricos. Novos elementos são incorporados, como o corso, a batalha de confetes e os cordões. Mas isso tudo é passado. O que se segue, vocês já conhecem.

MISS LENE DE MUITOS CARNAVAIS

“Dito”, ou “Miss Lene”, como queiram, é figura emblemática do carnaval cuiabano. Embora more na zona rural de Várzea Grande, é em Cuiabá que curte o reinado de Momo. Este ano ele vem festejando desde o Baile da Cidade, que antigamente era restrito à elite local. Chegou em grande estilo: vestida de vedete. Lembrou-se que, até recentemente, jamais poderia fazer isso: “Travestis não passavam nem perto”. Hoje, felizmente, os tempos são outros. Miss Lene acompanhou essas mudanças todas. É do tempo das marchinhas, dos cordões e dos blocos de máscaras. Perfeitamente adaptado aos tempos atuais, curtiu o carnaval cuiabano em toda a sua essência. Fez-se presente nos ensaios de escolas e blocos e na terça-feira foi um dos destaques do “Boca Suja”. Iria sair em um outro bloco, como “Maria Bonita”, mas não sabe o que houve. Na última hora sua personagem teve que sair do enredo. Abraçado pelo “Boca Suja”, transformou-se em “Odalisca”. E arrasou, como sempre!
(Na foto, Miss Lene comigo no Baile da Cidade deste ano)

SAMBA E MILITÂNCIA

A Rainha do Carnaval Cuiabano deste ano, Michele Oliveira, é de linhagem nobre. É da nobreza do Samba. A mãe, Laura Grace, nos demais dias do ano é engenheira florestal, mas no reinado de Momo ocupa com charme e competência o posto de passista. Já foi, inclusive, Madrinha de Bateria de blocos famosos da capital, como Boca Suja, Mocidade Independente Universitária, Pega no Meu Coração, Urubu Cheiroso, dentre tantos outros. A filha também vem seguindo os passos da mãe. Mas isso é pouco para falar delas. Militantes do movimento negro, ambas são membros do Grupo de União e Consciência Negra (GRUCON) e também do Instituto de Mulheres Negras (IMUNE). Eu as conheci há muitos anos atrás, no bairro Araés, na casa de Geraldo Henrique Costa, fundador do GRUCON. Michele, até então uma menina, fazia aulas de dança afro no “Grupo Cultural Filhas de Oxum”, fundado por Antonieta Costa, filha de Geraldo. Está explicado, assim, em parte, alguns dos motivos pelos quais Michele Oliveira fez a diferença como Rainha do Carnaval Cuiabano.

CARNAVAL E SIRIRI: A FESTA DE VARGINHA

A pacata comunidade de Varginha, zona rural de Santo Antônio do Leverger, agita-se durante o carnaval. É um carnaval diferente, realizado a partir de suas especificidades culturais. É feito, desde tempos remotos, à base siriri,a tradicional dança de Mato Grosso, com instrumentos típicos e rudimentares, como a viola-de-cocho, o mocho e o ganzá. O boi-à-serra é figura de destaque. À frente dois foliões empunhando as bandeiras. Uma é do bloco, naturalmente. A outra, creiam, é de Santa Gertrudes. A festa começa na sexta-feira e acontece o dia todo, estendendo-se noite à fora. Com a ajuda da comunidade, rola café da manhã, almoço e jantar. Cada um dá o que pode: um pacote arroz ou macarrão, frango, carne ou tempero. A comida é servida na casa dos festeiros. Este ano o rei foi José Carlos Carvalho, conhecido como “Bigode”; e a rainha sua irmã, Vergília Carvalho. Os foliões saem pela comunidade cantando e dançando, visitando as casas. Nessas horas as pessoas param com tudo para também se integrarem à festança. Faltando-me fôlego para acompanhar os foliões, dei uma pausa e parei em um pequeno bar da vila, para tomar um refrigerante e comer um pastel frito na hora. Não consegui comer o pastel. A dona do bar, muito gentilmente explicou-se que àquela hora seria impossível atender ao meu pedido. O pastel só sairia depois da passagem do bloco. Ela está coberta de razão. Inconveniente fui eu. Desculpa aí. Impossível ficar indiferente ao carnaval de Varginha. Homens, mulheres, crianças e jovens envolvem-se espontaneamente. Mas já foi muito maior esse envolvimento. João Gomes Siqueira, 60 anos, contou-me que, há trinta anos atrás, o cortejo contava com mais de três mil pessoas, vindas de toda a redondeza: Barreirinho, Morro Grande, Carandazinho, Pai André, Souza Lima... Chegavam no sábado e só iam embora na Quarta-feira de Cinzas. João lamenta-se que os jovens não aprenderam a tocar os instrumentos e nem se interessam pelos saberes e saber fazer para continuar com a tradição. Por isso, os tocadores que ali estavam vieram de Cuiabá. “Mesmo assim ta bonito”, disse-me, emocionado. Ao final da festa, todos iriam para a casa dos festeiros, onde iriam jantar e subir o mastro para a festa de Santa Gertrudes. Nesse momento seria anunciado também oficialmente os festeiros do próximo ano. Assumiu, assim, o posto de rei Miro Amorim; e o de rainha, dona Nenê. Miro já sabe que terá muito trabalho pela frente. Por exemplo, precisará de muita diplomacia para ajudar a comunidade a superar um dos principais obstáculos à preservação da comunidade, hoje dividida por questões partidárias. Explicando melhor: se os festeiros pertencem a um determinado partido, os que são de partidos opostos não participam da festa ou não se envolvem tanto quanto a festa merece. Outro obstáculo é envolver os jovens. Mas Miro não se desanima. Ele sabe que é preciso zelar pela herança cultural de seus antepassados.